sábado, 27 de julho de 2013

A Morta do Jardim

Saíste de onde não há
Para o tormento que não te sinto
Abriste com uma pá
No meio do meu dia
Um enterro de domingo

Saíste da noite sem escuro
Do subsolo de um segundo
Pungente e insólita
E veio doer onde não sei
Por um dia que nunca tive

Descolou o sossego do meu travesseiro
Deixou-me faltando
(Ainda que inteiro)
Plantou não sei onde um devaneio
Sobre um quê que não sei.

                                                        Vinícius Faria

Cegas Valkirias Anônimas

Meus pensamentos noturnos de insônia
Espremem o tubo de gel das mágoas
Aladas, bóiam entre aspas
Cegas valkirias anônimas
Conjurando lapsos de descaso
No largo quarto dos meus sonhos
Inquieto peregrina o ponteiro
Sentinela, a propor esparadrapos de tempo
Para a porta lascada de casas cicatrizadas
Paradas nos portos de dias chuvosos
Meninas esquálidas de vida enferrujada
E uma cantiga chorosa
De notas abandonadas
Ventos de consciência morta
A me deitar nas horas graves da minha vida
A comprida lástima de uma valsa noctâmbula

                                                                        Vinícius Faria

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Desculpa do Tempo

Escute-me, Alice
Se a teus ouvidos chega
Nem me dizes
Ao que falam te digo
Tanto é verdade
Como é mentira
Se todo dia se nasce
E se morre
Talvez tudo que dizem
Eu fui
Ou sou
Ou talvez, serei.

Entenda, Clarice
Se ontem estive
Hoje talvez não esteja.
Quem fui,
O que sou
Ou o que serei
Não posso ter certeza
De qual eu
Que sou, serei.

                         Vinícius Faria



Hemácias

Pequena polenta
Pegaste meu chinelo e foste até a varanda para ver se era chuva
Era vento
Deverias ter escutado mais Vivaldi
Lido mais Nietzsche
Esquecido estes vil escritos populares
Ao invés disso, despedaçaste teu corpo pela via dupla
Não faço ideia do que vi quando ouvi isso de Geraldo
Que menino mais pacato
Que menino mais empacado
Destes que vive de passado
Eu não vivo de passado
Eu não vivo de dor
Esta dor é por falta de ferro, Fernanda
Juro.

Deveríamos ter ficado no Sábado
Mas não vivo no passado.
É falta de ferro...
Acordei faz pouco, Geraldo
Não sei por onde andei
Só sei que perdi Helena
E eu nem a amava.
                                             Cesar Domity

Três e Quinze

Quer me devorar o tempo
E pior, é noite
E quem dorme, não ouve o silêncio que dobra

Agora a cama morna
Afoga-se
E comigo não dorme.

Nem tento ler
Meus livros na estante
Pois meus pensamentos são tão distantes
Que de terem letras por dentro, duvido.
E é um grande desassossego
Meus livros por dentro estarem em branco.

Duas horas acordado
Colocaram o dia
Dentro da barriga do distante
E parece estranho ter havido
Algo parecido com dia antes
Desta noite em que o distante
Comeu o dia

                                           Vinícius Faria