domingo, 1 de setembro de 2013

Despedaçamos nossos Braços

Despedaçamos nossos braços
Comemos nossos beijos
Sentamos no nosso cansaço
Há um morto na nossa sala
Já grita nosso silêncio
É hora vazia extraviada
E come pão sem manteiga
Uma mendiga em nossa porta
Já há pregos na nossa horta
Onde antes teve canteiros
Nossa hora sabe ter sido
E antes de ser já nos parece velha
Estamos operando nosso umbigo
Sem luvas de parcimônia
E anestesia de amor
Não mais dentro nem fora
Para a linha morta
Da nossa ocasião


                                        Vinícius Faria

otro

De tanto andar una región
Que no figuraba en los libros
Me acostumbré a las tierras tercas
En que nadie me perguntaba
Si me gustaban las lechugas
O si prefería la menta
Que devoran los elefantes.
Y de tanto no responder
Tengo el corazon amrillo.


Pablo Neruda (Homenageado)

Aonde Não Está

Onde estás agora... Perdida?
Como a ideia de não poder agarrar a ideia
Como perder uma moeda qualquer
Nalguma floresta qualquer, nalguma outra vida

Qualquer coisa como dia de verão com sol quente na rua
Onde tudo é longe, onde tudo é cansaço e cansado
Qualquer coisa como estar dopado numa cama
Qualquer coisa de cansaço físico inclusive nas pernas

Com a ideia de você agora estar vestida de branco num jardim
De estar calma, tranqüila, sentada e mais nada
Nítido mas distante, qualquer que esteja
Astro no escuro do espaço
Como qualquer coisa no tempo
Que coisa nenhuma separa, mas separa

                                     Vinicius Faria

domingo, 28 de julho de 2013

O Eu Estético

Caio de novo na tentação de ser estético.
Andei lendo coisas diferentes ao mesmo tempo.
Andei pensando sobre os Eu’s em diferentes lugares.
Andei pelas calçadas do centro da cidade com pessoas abarrotadas.
Simplesmente andei por aí.

Sinto uma certa tentação em ler ou em pensar nestes andares diversos.
A obrigação me faz caminhar. Não tenho prazer em tais esforços.
Pensei, por estas tardes de sol no inverno, sobre estes malditos Eu’s que enfestam a minha existência.
Ich, Je, I, Watashi, Yo e, enfim, Eu.
(Maldito senso estético que me perturba pelas ruas e pelos espelhos)
Eu de qualquer maneira... Porém, de qualquer maneira, Eu?
Tive esta sensação de estar perdido e não ser qualquer coisa senão organização.
E, no meio do caminho, Porfíri diz para Raskolhnikov “Quem é o assassino? O assassino é o senhor, Rodion Romanovitch. O senhor é o assassino.”
Imagine a espinha!
Mas que tanto me importa a espinha do Raskolhnikov?
E que tanto me importa minha estética e minha simetria?
Tenha-me como amorfo, então!
Sou amorfo e não tenho espinha. Não sou watashi, ou Ich, ou I e nem ser posso ser. Porque sendo algo, sou eu sendo. E desfaço minha propriedade de ser.
Isto, a que eu costumava chamar de eu, não mais é. 
                              
                 Cesar Domity

Mensagem


Bates com pequenos sussurros em meus tímpanos.
Nem perguntei sobre tua febre terçã de domindo e de terça.
Aquele dia que procuraste te esconder debaixo dos cobertores, enfrentei os semáforos e botei fogo em uns dez cigarros pelo caminho.
Imagino que tenhas deixado um bilhete o qual não posso encontrar.
Fazer tudo isso é muito difícil.
Não sei se é o sofrimento que é ser vivo e me toca ou se sou eu que sou coisa torpe e me espalho pelo espaço da cama.
Imagino que todos os escritores tenham esta coisa...
Esta presença persistente que de alguma forma é aconchegante e querida.
Comporta-se como filho, como namorada tímida, como um animal de estimação pesteado até o talo.  Enraizado no dia-a-dia.
Eu bem que mostrei que há torpor nos cobertores.
Eu mal sorri entre os sussurros.
Se é verdade que escuto, sou são e os outros são todos doentes.
Se é inverossímil, é porque há um déficit na minha retórica e, por conseguinte, todos os outros continuam doentes.
 
                                                Cesar Domity