quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Divagante no contratempo

O grito do silêncio
                                Enloquece o juízo
Minha vontade escuta
                                 Os conselhos do meu umbigo
Quebro o apetite
                              E arremeço no espaço
A cabeceira da minha cama
                                 Cabeceira de aço
Amarrada pelo cadarço
                                                           Tem um pé lá fora
                                 E o outro falso
Meu ego anda no jardim
                         Dançando uma valsa
E não acho uma alça
                                                 Que me puxe para mim

Há um barbante
                                                    Daqui  para o meio
                                     De um instante oco
             E tudo que respiro é o sufoco
De ainda estar respirado.

                                      Vinícius Faria


Das Cartas para o Senhorio

Faze a arte que queres ver.
Faze a morte para existires.
Manda entrar os carroceiros pelos portões de trás da cidade.
Manda venderem pele, prata e integridade – que é o que falta por estas bandas.
Fundamenta o impossível.
De imediato, fundamenta o impossível!
Em primeira instância, desenha a margem para a loucura que babas nas fronhas e fundamenta o impossível na parede do teu quarto.
Reformula os herois e os veste com o presente.
Enforca-os sequencialmente nas próprias capas.

Morre muito antes de morreres para não seres supreendido.
Pega o lenço da bela senhorita como desculpa para o próximo encontro e o esquece na estante da existência.
Faze a volta para nunca te encontrares.
Encontra a saída do fim e volta a continuar.
Mascara-te para o mascate e o manda vender-te.
Refina-te e livra-te deste cheiro de plebe em banho de leite.
Alinha os planetas e anuncia o fim.
Suga as virgens até lhes tirar o sabor.
Emana a ti para todas as faces.
Imbui-te de realidade que o tempo não tem eixo negativo.
Embaralha-te sempre.
Embaralha aos homens pois, nas suas condescendências e na indolência de ser, querer-te-ão.
E evita nestes tempos insanos abrir o cortinado com a lamparina na mão para ver quem bate palmas lá fora.

                                       Cesar Domity

Nipônico Tropical

Esses olhos de jabuticaba
Do sul da ásia
Da malásia
Da indonésia
Com cheiro de café

Esse nariz pequeno
Quase segredo
Meio que pelo meio
Anti-judeu

As petálas de um jasmim
De um suspiro
Das flores que não entendo
E nem lembro

O vestido de bolinha
O bolero de couro
É só lembrança
Da minha mãe

Cabelo curto
De criança
De sorriso alado
Meu horizonte vazando...

Embrulha-te então
Em um vestido floral
Brinca de elegância
Saiba da ciência
Dos elétrons
Das enzimas
Novo mundo
Nova criança
Saiba da crisântemo
Do alecrim
Da porteira aberta
Da Roberta
E do Serafin

Dos lagos sem peixe
Das tardes sem fim
Do suave toque
Da amor de espuma
Da penumbra
Do corpo
E debaixo do corpo
Teu cheiro nipônico
De sakura do outono

                                Vinícius Faria

Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), 15-1-1928  (Homenageado)

Ode para os miúdos

Uma vela acesa ou um morango
Queima a vida como um tango
Vaza das mãos
Mesmo as mais sedosas
Como água da torneira, manhosa
E o que a espera, adivinha
Cinco palmos de terra, bem fofinha
E acredite que em nós, no cerne
Há de viver um dia
Um muito simpático verme

                                            Vinícius Faria

Versos para Iop.

Encaramujada esta valimenta perla
Lacrimejando quando a sós... completa
Sofisma ao sorrir
Tencionando deplorar
Perfilha o fingir
Encerrando o olhar
Que seduz e enreda.

Digas o que há que te encantas
Se te espantas, o que há?
Ler-te com vistas cerradas
Tua beleza fugaz
Infértil curteza de vida fechada
Onde o tudo traz
A efêmera alegria ignávia
E nenhuma criança sábia
Para tua tristeza herdar.

Esvai-se o tempo que te resta, perene amiga...
E nesta vida, soubeste desfrutar?
Pois dos namoros que levamos
Sobremodo tanto retiramos
Só que nunca, nunca aprendemos a amar.

Conquanto esta veleidade
Dos teus sorrisos fulgorosos
Sejam tão mais bondosos
Quanto os ensejos da tua idade.

                                            Cesar Domity

Inconsciente Verossímil

Inconsciente verossímil
Taciturna luz do abajur
Esconde-me do mundo
Nas clausuras do meu quarto
Suicídio graduado
Com vinho tinto
Cigarro e pão
Em vezes deito no chão
À espera da tenacidade
Da alerta e da vontade

Indiferença espessa consciente
Às conquistas e à glória
Não me satifazem
Nem mesmo a vitória
Pelos esforços que tende
Portas abertas no fundo da mente
Nas conjecturas... sente
Um pisar em ovos
Na minha alma vive
O segredo do medo
De todos os povos

Vem a voz da minha voz
No silêncio do pó
A vaidade da vontade
Os erros do meu ser
Nos olhos o que ver
Para trás da retina
Cheira sempre a saudade
Num niilismo reluzente
Minha alma sente
A verdade da verdade da verdade iminente.

Chão... céus...
O intervalo da indiferença
Reforçando os limites
Debaixo das imunes crenças
Deitadas na cama horrenda em que deito
À espera de uma voz quente
Trazendo a certeza em seus seios
E o corpo doce
No asco que me lucida
Como uma bagatela, some.

Voz aveludada da solidão
Desilusão do não
Chegada da minha donzela
Que ninguém prometeu
Meu algoz matinal
A lua cheia estampada
Carne vencida e fraca
Vaidade corrompida e falhada

É um juízo meu não ter sina
Grécia, Espanha, Holanda
É tudo varanda
Em que eu podia
Sentar e ver a vida

No quarto das matizes
Em meus olhos
Couberam tantos universos
No meu astigmatismo, eu erro
Até o que não vejo
Escuto
E do silêncio
Espero um beijo

A lembrança espia a minha vida
A manhã segue fria
Como o curso do rio
E é dificil ver
A diferença dos próximos
Nem chegaram, já cansei
Existencialismo me causa ânsia
E hei de ir para o guarda roupa
Procurar a Nárnia
Da minha infância
E se não for isso
Quero voltar pelo menos
Para o útero da minha mãe.

Vinícius Faria